O PORQUÊ DO PICA MIOLOS

Mais do que um espaço, a CasaViva é um meio de provocação. Nunca foi um projecto meramente artístico
ou cultural. Muito menos uma ideia comercial ou pretensão de figurar no mapa da noite portuense.

A CasaViva é um esforço de cidadania, um espaço de activismo, com aspirações a anfetamina que combata a letargia
e a incapacidade de indignação. Para contrariar essa instituída forma de pensar, ser e conformadamente estar e viver.

Se o espaço é temporário, o projecto não quer ser efémero. Nasce, assim, o "Pica Miolos", folha de opiniões
numa resenha de notícias que nos foram chegando e tocando mais profunda ou especialmente.

Seguirá um critério necessariamente tendencioso, como todos os critérios editoriais
de todos os media que se dizem imparciais. Objectivo: picar miolos.

E assim participar na revolução das mentalidades desta sociedade acrítica
e bem comportada e demonstrar de que lado do activismo a CasaViva vive e resiste.

domingo, 6 de abril de 2008

Eu disse que te dava uma pastilha elástica, mas nunca te prometi que não a mastigava primeiro

Sócrates decidiu que não há referendo para ninguém. Bem, talvez não tenha sido ele quem decidiu, mas a verdade é que foi ele quem transmi­tiu essa decisão. Portanto, foi também a ele que coube a tarefa de explicar o porquê do caminho escolhido.

Ora, o rapaz não fez por me­nos e decidiu tomar-nos a to­dos por parvos. Começou, na boa linha ditatorial de que vai dando cada vez mais exem­plos, por afirmar que “não se justifica fazer um referen­do quando há um consenso alargado na sociedade por­tuguesa quanto ao projecto europeu e quanto ao próprio Tratado de Lisboa”.

Então andaram estes homens todos, mais sábios que a so­ciedade portuguesa, decerto, a discutir, durante meses, se não anos, o que se escreve no Tratado e nós, que não participamos nessa discus­são e que, portanto, estamos menos conscientes das im­plicações reais do enunciado, estamos de acordo logo à par­tida? Ou será que a sociedade portuguesa é bastante mais evoluida do que os líderes europeus e não necessita de mais do que meia dúzia de no­tícias no jornal para cimentar a sua concordância?

Passando à segunda razão para não se referendar o Tratado de Lisboa, não podemos senão ter medo de a TSF ter deturpado propositadamente as palavras de Sócrates, quando lhe coloca na boca a frase “Fazer um refe­rendo aqui em Portugal teria implicações noutros países e é justo dizer que, no mínimo, agravaria os riscos de o tra­tado nunca entrar em vigor”. Ou então, o moçoilo perdeu o pudor e atreveu-se mesmo a dizer que a democracia que ele defende é um sistema em que, caso se desconfie que a res­posta do povo é diferente da vontade de quem manda, não se coloca a pergunta.

Não se trata de perguntar ao povo português. Aí, Sócrates, acha que o governo até ga­nhava, porque aproveitaria a discussão sobre o Tratado de Lisboa e sobre o que é isso da União Europeia, para “centrar o debate político num dos maio­res sucessos do Governo, al­cançados em Lisboa durante a presidência portuguesa”. Desta vez não será dos jornalistas da TSF, será de mim, mas acho que o que o primeiro ministro está a dizer é que até lhe dava jeito que as atenções fossem desvia­das para aí, de forma a que não se reparasse tanto no que, no entretanto, de mal ele fizesse. Trata-se, isso sim, de perguntar a povos mais imprevisíveis do que os tugas, gente que, por vezes, decide ir contra a voz do dono. Isso disse Sócrates quan­do afirmou, que tal “agravaria os riscos de o tratado nunca entrar em vigor”. Sei que esta repetição duma citação não é do mais ortodoxo, mas ainda não deixei de me maravilhar com a candura da frase.

O que eu gostava mesmo era de viver numa terra onde essa no­ção de primeiro-ministro fosse obsoleta. Mas, enquanto não se chega lá, já me ia bastando que o PM pugnasse por que o seu país fosse mundialmente conhecido por ser inflexível na aplicação das noções que o sus­tentam, como seja a de demo­cracia. E não por ser o que dá exemplo de autoritarismo de forma a que outros não tenham que sair embaraçados.

O terceiro argumento é mais uma cereja em cima do bolo. O que ele prometeu referen­dar foi a Constituição Europeia, não foi o Tratado de Lisboa. Podia ter utilizado isso antes: o que eu prometi referendar foi o aborto, não foi a inter­rupção voluntária da gravidez. Tão infantil que até dói.

Eu disse que te dava uma pastilha elástica, mas nunca te prometi que não a mas­tigava primeiro. Ah! como odiei o meu irmão quando ele me disse isso...

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