O PORQUÊ DO PICA MIOLOS

Mais do que um espaço, a CasaViva é um meio de provocação. Nunca foi um projecto meramente artístico
ou cultural. Muito menos uma ideia comercial ou pretensão de figurar no mapa da noite portuense.

A CasaViva é um esforço de cidadania, um espaço de activismo, com aspirações a anfetamina que combata a letargia
e a incapacidade de indignação. Para contrariar essa instituída forma de pensar, ser e conformadamente estar e viver.

Se o espaço é temporário, o projecto não quer ser efémero. Nasce, assim, o "Pica Miolos", folha de opiniões
numa resenha de notícias que nos foram chegando e tocando mais profunda ou especialmente.

Seguirá um critério necessariamente tendencioso, como todos os critérios editoriais
de todos os media que se dizem imparciais. Objectivo: picar miolos.

E assim participar na revolução das mentalidades desta sociedade acrítica
e bem comportada e demonstrar de que lado do activismo a CasaViva vive e resiste.

domingo, 6 de abril de 2008

O baldio

A cidade também se dissolve. Mesmo antes do amanhecer, con­serva ainda alguma da sua beleza. Vazia, deserta, só, mostra-se em todo o seu esplendor. Tão intenso, que certos locais não se deixam mais admirar, apenas espreitar, como se a rua fosse o local de um crime acabado de ocorrer. Seguindo o canto dos seus cantos mais escuros somos surpreendidos frequentemente pelos encantos dos cantos que se seguem e conseguimos por vezes perceber as ra­zões do nevoeiro e as outras possibilidades. É a melhor hora para a apreciar, ainda sem aquela luz intensa que nos faz semi-cerrar os olhos e torna mais difícil ver o que está bem à vista.

Pois o dia começa à hora marcada, e de repente, infalível e pontu­almente, rios de gente escorrem em direcção ao centro, uma baixa pressão que atrai todos os afazeres. A cidade passa a estar programa­da. Cada rua, cada praça, cada jardim tem uma função. Cada placa, cada rampa, cada traço no chão. Deixa de ser possível evitar os cons­trangimentos e os direccionamentos, as possibilidades impossibili­tam-se e o rio é contido nas margens para ele inventadas.

A cidade não deixou de ser bonita, mas agora esconde-se. Envergo­nhada pelo olhar de toda aquela gente de fora, que não a compre­ende e não a sente porque não vive nela. Vêm dos subúrbios e são turistas, quer tenham a máquina fotográfica na mão ou não, e a ci­dade sabe-o melhor que nós. É ela que anda a ser chulada.

Já não há tripeiros, caiu a Invicta! Roída por dentro, onde já nin­guém a defende, nem ninguém a quer. À sua beleza, história, alma, futura e passada, preferiram o condomínio fechado e a tv cabo pré-instalada.

Abandonada, drogada e confusa, comporta-se já não como uma cidade, mas como um daqueles cenários que antigamen­te se montavam para o cinema. Comporta-se como uma facha­da. Uma fachada tal como os seus governantes, representan­tes e outros pedantes. Esses também acordaram há pouco e têm medo da cidade com que sonharam.

Querem-na assim, seca e embalsamada, em exposição para quem pode pagar, e pagar-lhes. Não tarda, até a chorar os ve­mos, perante a ruína citadina… Tanto pior, preferimos baldios a centros comerciais e dependências bancárias.


Comissão de Moradores da Cidade do Porto Futuro

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